
Desde as primeiras cenas, em que a protagonista ensaia e interpreta um texto teatral, a encenação está em cheque. Pialat parece sublinhar a inevitabilidade da representação, mas é consciente dela que consegue alcançar um realismo impressionante e literalmente brutal. Tanto pelo que tem de violento – as agressões entre os membros da família, filmadas em longos planos sem cortes, são perturbadoras – quanto de bruto, mesmo, já que as constantes elipses sugerem um filme com peças faltando.
A câmera acompanha a personagem de Sandrine Bonnaire (então com 15 anos, em sua estreia no cinema, numa das interpretações mais inacreditáveis da história) por um período de tempo que desconhecemos, indo de um momento a outro abruptamente, sem se importar com a construção de uma estrutura narrativa clássica, que dependa de acontecimentos dramáticos crescentes ou personagens que vão de A à B. No filme que fala sobre a descoberta do corpo, da sexualidade, da passagem da adolescência à vida adulta, o que importa é o registro do momento em toda a potência do viver. (Não é qualquer pretensão, mas também não é qualquer filme).
Como Yoshida afirma que acontece em Ozu, Pialat admite que é impossível compreender o grande caos que é a existência humana, e se recusa a tentar organizá-lo através de uma narrativa lógica, com sentidos de causa e efeito, em que isso leva àquilo e l + 1 = 2. Quando não sabemos se passou um mês ou um ano entre um plano e outro; quando personagens desaparecem sem maiores explicações; quando um corte seco separa uma cena em que transbordam sentimentos de amor e felicidade tão verdadeiros de outra em que pais e filhos se estapeiam despudoradamente… o que testemunhamos é o próprio caos.
Aos Nossos Amores renuncia qualquer possibilidade de ‘psicologizar’ seus personagens; eles são o que são. Ao final do filme, poderemos não ter compreendido o que motivou essa ou aquela ação, mas certamente o que sentimos estará muito mais próximo do que foi vivido na tela. Sentimos a vida. O que mais importa?
(G)